sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Algo sobre o amor 2

Algo sobre não ter palavras
algo sobre não ter mais adjetivos, verbos, advérbios, tempos , pretéritos perfeitos e imperfeitos.
Algo sobre o exagero, sobre as comparações megalomaníacas.
Algo sobre o não científico
sobre um mar de sentimentalismo
sobre tudo que deveria ser bolha de sabão
se não fosse tão difícil de estourar.
Algo sobre o arrepio
sobre o desejo
sobre um cheiro
infinito de acabar.
Algo sobre aquela vontade que dá
mas nunca passa.
Vontade que não se sacia, como depois de chupar o tão esperado picolé de banana.
Algo tão raro...
quanto um picolé de banana.
Algo sobre o brega, sobre o sagrado, o profano, o cafona, como o rock, como o blues, jazz e poesia de botequim.
Existe algo sobre o amor
Existem milhões de algos sobre milhões de amores.
Mas existe algo
sobre o meu
e que é só meu.
Existe algo, que se repete todos os dias
existem algos que acontecem em mim todos os dias
algo que muda, que aperta, espreme e até dói.
algo que cresce e se mutiplica em infinitos algos e afins.
Esse algo é meu e só nosso.
Algo sobre sobre o amor
Algo bem complicado de escrever.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Caio F. Abreu

Eu sei que se ele estivesse aqui, ele me entenderia.
e então eu disse que sim, que estava disposta, que eu teceria.
Que eu teço.
Assim como eu tento compreender toda aquela saudade e aquele amor de sempre
e seus 1,80 m de solidão. Não tão alto, acho...
ah, o exagero.
Seja como for, você está quase sempre perto de mim, quase sempre presente em memórias, lembranças, estórias que conto às vezes.
Somos inocentes em pensar, que sentimentos são coisas passíveis de serem controladas. Eles simplesmente vêm e vão, não batem na porta, não pedem licença. Invadem, machucam, alegram, você me ensinou.

Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos.
Você bem sabe que é difícil aprisionar os que têm asas.

Lembra que uma vez você me disse:

"Cuidado com as ilusões, mocinha, profundas e enganosas feito o mar."

mas logo depois me confortou:

"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra."

Hoje eu quis te escrever, quis fazer das suas as minhas palavras, porque na minha memória - tão congestionada - e no meu coração - tão cheio de marcas e poços - você ocupa um dos lugares mais bonitos.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010.

Desejo qualquer coisa incontável
qualquer coisa desmedida
sem limites
desejo o que arde
o que jorra
o que faz pulsar
desejo ARTE
desejo continuar pulando
de mil em mil precípicios
desejo amor infinito
maior que todos os edifícios enfileirados do mundo
maior que o big bang ou o big ben?
Desejo muitos frios na barriga, muita paixão desenfreada desejo sempre A MESMA paixão desenfreada.
desejo arde e dói
mas o sangue corre corre e corre nas veias.
A vida corre corre e corre
pulsa
bate e apanha.
Mais 1 ano novo e velho.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

chuv.AR.

E tudo aconteceu naquele instante.
Molhada de chuva numa rua escura
enxarcada de água nos olhos.
Percebia-se uma certa frieza em seu olhar
como se tivessem partido
aquele tal gelo brilhante que anda no canto dos olhos.
Não eram tempos de flores
eram dias de chuvas devastadoras
tempos de maços de cigarros vagabundos
rastros de lama nas solas dos sapatos imundos
sapatos altos e caros
quebrados e enlamaçados.
Correu.
Correu sem quê nem pra quê.
apenas correu
vento gelado de tempestade no rosto
raios e trovões
como num momento trágico, de um filme triste.
Corria.
Corria cada vez com mais dificuldade.
Água no tecido da roupa pesa.
Águas que se desprendem dos olhos também.
E no caminho
enxarcada de chuva e vencida pelo cansaço
a menina parou.
Existia um limite inalcansável, dentro do se próprio limite
Então, a menina agarrou
com toda força que tinha
todo o ar que podia respirar.
E sempre que chove
ela corre na chuva
sempre que chove
ela respira
e nesse instante
não há limites.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Menina bonita bordada de caos.


A cada passo torto
quebrava um vaso de flores
por isso contava os passos
pra dar mais leveza ao desastre.
Teria uma sisma por caminhos tortuosos
ou uma predisposição ao precipício?
Rodava, girava e rodava
mas o ar nunca alcançava.
Ia contando e recortando o caos, pintado de veias coloridas.
às vezes andava com fogo
acendia um isqueiro e incendiava
queimava as bordas
de qualquer papel de carta e rodava...
a menina do caos.
diziam que era sina
transformar tudo que rima
em algum poema que desafina.
Vai ver era só dizer a ela...
"moça por favor, cuida bem de mim."

domingo, 6 de setembro de 2009

Carta à Mafalda.


Mafalda, minha muito querida


Ando tão passional... Não, não são os novos amores. Tampouco os antigos, estes já se cristalizaram no meu sangue- irremediáveis. Escrevi ao Joaquim por esses dias, contava lhes da minha inquietude, da minha crença no ceticísmo como único terreno realmente firme. Não quero dar a esta carta um tom de melancolia tão propriamente meu. Tenho lutado a favor do pragmatismo dos modernos – Romantismo, geração segunda, eu sentada na varanda ao meio dia. Irrespirável. Os dias frios - nesta cidade quente - refletem as minhas produções irregulares. Sou feita de chuva, você bem sabe. A mente que passeia pela baía de Guanabara, olhos que pairam sobre a de todos os santos. Seis meses de solidão à minha espera. Só a Ana e eu, cada qual com a sua solidão mais obvia. Ela jura que cai das páginas para os meus braços (tantas paráfrases, aquele índice Onomástico que eu juraria ter sido feito por minhas próprias mãos. Não importa tanto). Mas saio de mim e me estendo a você. Quero saber dos seus dias. Dos seus dois quereres e planinhos sempre à mãos. Será que algum dia, em um desses tantos palcos, você não interpretou você mesma? Acho que um dia lhe lerei. Mergulhar num café surreal e respirar 40 anos de Beatles. Registros embebecidos e gosto de chocolate na boca? O nosso menino especial a dirigir além do carro toda aquela situação que já me compõe? Leio Adélia e leio você. Adorável compatibilidade. Aparece. Não prometo tipicidades no Sábado, mas um blues, mentes pra todos os gostos, licor pelos sorrisos.


Sua Líz.


*Um presento bonito, de quem sempre faz falta.
Thank you Líz.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Meu.


Ela teve um labririnto na infância

aprendeu que quanto mais se perdia

mais se encontrava.

Dentro do labirinto,

compreendeu que não existe um só caminho

que não existe uma só possibilidade

as vezes pela direita haviam monstros

e pela esquerda aqueles sonhos esquisitos de criado-mudo.

Ela nunca teve medo de mostros no armário

apenas de sonhos de criado-mudo.

sonhos de olhos abertos.

Ele nunca abria os olhos enquanto ela gritava.

Ele nunca se movia enquanto ela batia,

ela teria que aprender a gritar

dizia ele

sem ninguém para apartar.

Ela tem que aprender a correr,

dizia ele,

sem ninguém para se agarrar.

Ela tem que andar numa corda-bamba, elegante como uma bailarina.

As vezes preferiria não ter sujado tanto as mãos de terra

mas hoje sente falta de balançar na mangueira

dos livros esquisitos

e de ver o mundo mais mais alto que as outras crianças.

Um dia ele matou uma cobra, pra vingar seu coelho,

ela gostou

depois chorou

nem cobra

nem coelho.

tanto faz.

Obrigada,

por sempre me confundir

e por me fazer fugir

das comidas que eu nunca comi

das orações que eu nunca entendi

das idéias que eu nunca aprendi

das músicas que eu nunca quis ouvir

e do mar, que um dia quis me engolir.


For my father.

with love.